Ausência

 

Diz-se na rua que tu seguiste em frente, mermurios de velhos saudosos dos que já viram desaparecer o que mais tomavam como certo diante dos seus olhos que já tanto viram vir e ir, correr e partir. Palmilho a rua onde tudo começou uma vez mais, as luzes permanecem iguais e aquele maldito passeio continua com o mesmo buraco desdenhado onde eu tropeçei. Subo a rua e saborei-o cada passo, recordo a ansiosidade que o meu coraçao escondia por essa noite. Eu sei que provavelmente nunca soubeste mas foi nessa noite que me entreguei a ti, somente nessa noite . E tu não eras meu, o teu corpo pertencia a outras mas a tua alma não sabia desdenhar a minha .

 Virei a cara para o outro lado da rua, procurei paredes, pessoas, gritos, risos, nomes e objectos que me fossem novos, que não me levassem uma vez mais a ti. Entrámos num bar que não o mesmo daquela noite para meu consolo. Olhei em volta e senti-me nada pois ali nada era. Deixei-me cair sobre o balcão e fui levada pela maré de alcool que me ia sendo servida. Desviei-me para a pista de dança onde dançei para te esquecer, em poucos minutos deixei que o meu corpo tomasse controlo de algo bem maior que eu e tu , deixei-me saborear aquela música. Saí do bar sozinha e deixei que eles se divirtissem, esta noite não é minha . Olhei em frente e vi aquele banco, não me mexi. Juro que não fui capaz de me mexer , até que tomei coragem e me sentei nele . Estava molhado pela chuva mas de pouco me interessou. Fechei os olhos e encontrei-te uma vez mais, estavas lá de novo a olhar para mim , a brincar com o meu colar e com o olhar preso no meu . As lágrimas caíram, e eu deitei-me no banco mas abri os olhos. Abri os olhos para a realidade, a nossa . Tu estás em cada sorriso meu , mas encontro-te mais nas minhas lágrimas. Acho que não me custa o facto de o teu amor por mim ter morrido, dói-me mais o facto de me teres abandonado. Sinto-me só, mas lá fora ninguém sabe que há vazio.

 Só me ergui do banco quando deram pela minha falta no bar, pensavam que te iria ligar e chorar uma vez mais por ti. Eu liguei-te e não atendeste uma vez mais, eu não queria chorar nem insultar-te, queria apenas contar-te como as coisas mudaram. Como tudo mudou desde que me deixaste só .

 

publicado por Lébasi às 20:32